O livro de memórias de Vítor Ramalho cruza a história recente de Portugal, Angola e Moçambique

Em As Minhas Causas, o amigo de sempre de Mário Soares conta como conseguiu que a Renamo participasse nas primeiras eleições multipartidárias de Moçambique em 1994. Mas há mais 40 anos de histórias.

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Vítor Ramalho deu um contributo importante para os processos de paz de Angola e Moçambique Rui Gaudêncio

Nicolau Santos chamou-lhe “o português mais angolano de Portugal e o angolano mais português de Angola” e Leonor Beleza descobriu a “experiência de vida mais rica do que podia imaginar” de Vítor Ramalho, envolvido que esteve nas “vicissitudes políticas dos últimos 40 anos”. Mas o que ambos sublinharam ao apresentar o seu livro As Minhas Causas, esta quinta-feira, em Lisboa, foi o seu “papel decisivo para que a Renamo participasse nas eleições gerais de 1994”, as primeiras multipartidárias de Moçambique.

Vítor Ramalho, o amigo inseparável de Mário Soares, seu consultor em Belém, conta no livro de memórias agora lançado, como o então Presidente da República lhe deu carta-branca para ir a Moçambique tentar desbloquear o impasse em que o processo eleitoral estava e como conseguiu fazê-lo, numa conversa decisiva com Afonso Dhlakama. Como já antes assistira e participara nos bastidores do Acordo Geral de Paz assinado em Roma em 1992.

Mas é da relação com Angola que Vítor Ramalho tem mais memórias, e mais sentidas, dada a sua ligação umbilical ao país onde nasceu. Foi uma das figuras centrais no processo de mobilização do I Congresso dos Quadros Angolanos no exterior, que enquadrou o processo de paz para Angola, em Bicesse; promoveu a campanha portuguesa contra a fome no país durante a guerra civil e conseguiu que Mário Soares fosse convidado para uma visita de Estado a Luanda mesmo no fim do seu mandato presidencial. Entre muitos outros episódios.

Ainda que o seu coração seja “metade angolano, metade português”, o conterrâneo Nicolau Santos fez questão de salientar a “coragem” de Vítor Ramalho em lembrar que “a guerra colonial [em Angola] durou 13 anos e a guerra civil 34”, e que nesta “morreram muito mais pessoas que na guerra colonial”. E de apontar a “reflexão mais profunda” do livro: “A ausência de pensamento estratégico com África, o que leva a que Portugal perca importância no concerto das Nações”.

Em Portugal, esteve sempre nos bastidores da vida de Soares, e às vezes no palco em seu nome. Como aconteceu no Congresso Portugal Que Futuro, ainda que se escuse a atribuir abertamente ao então Presidente da República a autoria moral daquele acto político contra a maioria absoluta de Cavaco Silva. O que já não acontece com as reuniões da Aula Magna em 2013, em plena era da troika e de outra maioria absoluta da direita, desta vez do PSD e do CDS, em que essa autoria é assumida.

Entre muitos outros episódios, Vítor Ramalho lembra a Cimeira das Lajes que antecedeu a Guerra do Iraque e a visão crítica do próprio Mário Soares sobre a decisão do Durão Barroso. E mais recentemente, como se distanciou do amigo na “ruptura” dentro do PS, quando António Costa desafia António José Seguro e lhe ganha o partido, preparando a geringonça.

Histórias que Vítor Ramalho, que se apresenta como “ouvidor dos mais velhos”, quis deixar em letra de forma para “transmitir aos mais jovens”, factos que os podem ajudar a perceber melhor o presente.

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