Uma homenagem feliz aos avós

Pessoas especiais que deixam memórias felizes e indeléveis. Assim são os avós, os deste livro e os de muitas vidas.

“Alguns avôs são carecas, mas, mesmo assim, têm pêlos no nariz e nos ouvidos”
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“Alguns avôs são carecas, mas, mesmo assim, têm pêlos no nariz e nos ouvidos” Sérgio Condeço
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“Os bolsos das roupas dos avós trazem rebuçados e lencinhos de pano para assoar o nariz dos netos” Sérgio Condeço
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“Os avós conhecem os nomes de todos os animais e sabem imitar todos os seus sons” Sérgio Condeço
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“A melhor herança que os avós deixam aos netos é feita das histórias que contam” Sérgio Condeço
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Capa de Os Avós São as Pessoas Preferidas dos Pássaros, edição da Nuvem de Letras/Penguin Random House Sérgio Condeço
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“Os avós são trazidos de um lugar mágico e viajam sempre num barco de piratas. Muitos avôs têm cabelos brancos ou cinzentos, outros têm bigode ou caracóis ou pêlos no nariz e nos ouvidos.” Assim começa um livro que homenageia os avós na sua relação ímpar com os netos.

Os avós são para abraçar”, escreve-se a dada altura, depois de se lembrar que “há avós que cheiram a lavanda e avôs que cheiram a mapas antigos, avós que cheiram a mar e avôs que cheiram a pão quente”.

Num registo poético, Raquel Patriarca recorda “os anos felizes” em que foi neta. “Há muito das minhas memórias de infância neste livro. Desde o arroz-doce até aos mindinhos tortos. Muito da minha experiência como neta, mas também daquilo que observo na relação de outros netos com os seus avós ou dos avós nos momentos encantados que dedicam aos netos. Do meu filho, por exemplo, com os avós com quem orgulhosamente construiu e continua a construir muitas e boas memórias”, descreve ao PÚBLICO via email.

Perguntamos se este livro correspondia a um objectivo concreto. “Não sei se houve um objectivo consciente, mas há uma homenagem que se faz, sim, e que me parece importante. Tenho dado por mim a escrever muitas vezes sobre os meus avós. Mesmo a pretexto de outras coisas, como se eu própria fosse surpreendida por reflexões que concentram toda a luz e ternura das memórias e experiências, pequenos gestos que, operados numa fase específica da minha vida, vieram a transformar-se em enormes linhas definidoras da pessoa que sou agora”, responde a mediadora de leitura para o público mais jovem, doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com uma tese sobre a história do livro infanto-juvenil em Portugal.

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“Os avós são para abraçar” Sérgio Condeço

Raquel Patriarca acrescenta ainda: “Penso que, na altura em que o escrevi, este texto não tinha outra função que não fosse fazer-me companhia e ajudar-me a resolver as saudades.”

Acabaria por ser transformado em livro depois de nascer uma relação de amizade entre a autora e o ilustrador. Conheceram-se no Em Nome da Terra – Festival Literário de Gouveia, “conheci o Sérgio perto da serra da Estrela, onde passei uma parte da minha infância, e foi uma espécie de amor à primeira vista”.

Os pássaros como linha narrativa

Sérgio Condeço conta ao PÚBLICO: “Em Gouveia, disse à Raquel que gostava de ilustrar um livro dela, gosto de poetas e considero a arte da poesia um exercício difícil na escrita e daí compete quando transportado para a literatura infantil.”

A autora enviou-lhe este texto e fizeram-lhe afinações como se “pertencesse a ambos”, recorda o ilustrador, acrescentando: “O facto de ter sido avô precoce ajudou-me a entender por dentro as palavras. Sendo neto de uma avó com 103 anos, entendia bem as palavras do lado de lá.”

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“Os avós têm rugas no rosto e ossos tortos nos dedos. Os netos não se importam porque no rosto enrugado dos avós há sempre um sorriso, e os dedos tortos dos avós fazem sempre festas nos cabelos dos netos” Sérgio Condeço

Depois de a editora ter acolhido bem a ideia, partiram “neste voo com pássaros e avós”.

Sérgio Condeço, que se formou em Design Têxtil mas que se dedica exclusivamente à ilustração, reconstitui os seus pensamentos para explicar como chegou a esta solução gráfica e estética: “Cada página do livro fala de coisas diferentes, senti então que tinha de as ligar numa linha narrativa que as unisse, mas que deixasse cada momento como independente. Surgiram então os pássaros, que tanto levam os avós na sua viagem como são os próprios avós ao longo do livro.”

Sobre a técnica e as escolhas, diz: “Usei uma paleta feliz, colorida, com algumas cores neutras para não nos esquecermos da poesia da autora. Trabalho ultimamente com acrílicos e os detalhes em digital.”

Este é o 14.º livro que ilustra e diz ser o primeiro em que não encontrou qualquer erro. “Os ilustradores encontram sempre pequenas coisas que nos fogem ao controlo. O papel sem brilho, a impressão perfeita, as cores como nos originais e o design adequado fazem-me sentir que cheguei à idade maior.”

Os Avós São as Pessoas Preferidas dos Pássaros será lançado neste sábado na Póvoa de Varzim, no Cineteatro Garrett, às 12h, na Sala de Atos, integrado no encontro Correntes d’Escritas.

No final desta homenagem escrita e desenhada, conclui-se: “Os netos mais felizes transformam-se na melhor espécie de avós.” Não se duvida.

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