João comprou meia aldeia abandonada no Gerês — e o plano é as casas ficarem assim

João Amorim tem o projecto 3D da aldeia da Varziela e está à procura de empresas de construção. O plano: um hostel, T2 e currais convertidos em casas para receber até 80 hóspedes.

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A aldeia da Varziela vai ser reconstruída para ser uma unidade de turismo rural ENARK ARQUITECTOS/João Amorim
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João Amorim estava a fazer os caminhos de Santiago quando encontrou uma aldeia abandonada e à venda no meio do Gerês. No início de 2023, decidiu comprá-la e concretizar o sonho do pai: deixar o emprego e ter um trabalho mais ligado à natureza.

Um ano depois, a aldeia da Varziela já tem um projecto de arquitectura na câmara municipal de Melgaço, e imagens 3D que mostram como deverá ficar assim que João, influencer e líder de viagens, o pai e o primo, que também fazem parte do negócio, encontrarem uma empresa de construção disponível e capaz de reconstruir meia aldeia.

No total, adianta em entrevista ao P3, comprou dez casas, uma eira e um forno comunitário por quase 100 mil euros. Para as obras, está a prever gastar “perto de 1,5 milhões de euros”. “Isto é um projecto de paixão pelo local e pelas pessoas de lá. Sabemos que não é o melhor 'investimento' das nossas vidas", responde, a quem questiona o plano.

“Os arquitectos estão a terminar os projectos e vamos conseguir ter orçamentos detalhados. Assim que tivermos, vamos fazer candidatura de financiamento do Turismo de Portugal. É um projecto chamado Qualificação e Oferta em Turismo que vai abrir agora em Abril e empresta dinheiro para fazermos as obras sem juros”, explica. O plano é começar a reconstrução já este Verão.

Mas enquanto isso não acontece, João, mais conhecido no Instagram como @followthesuntravel, tem usado as redes sociais para mostrar como estão e vão ser as casas do “fundo da aldeia” e os objectos perdidos que por lá ficaram. Na semana passada publicou um vídeo no YouTube e mostrou carros de bois, camas, louça, cadeiras e até penicos. Para o final desta semana, revela, está previsto outro com as imagens 3D do projecto de turismo rural.

Segundo o influencer de 31 anos, de São João da Madeira, algumas das habitações ainda são originais, com paredes de pedra, currais e janelas pequenas que resguardavam os habitantes do frio durante o Inverno, época em que desciam o monte com os objectos que mais falta faziam e habitavam as casas até à chegada da Primavera. Outras, como a casa da torre, já são de cimento e até tem persianas.

“Vamos ter casas com decks nas traseiras, mas mantendo a traça original. A ideia partiu de um senhor que morreu há pouco tempo chamado Fernando, que foi a última pessoa a nascer na Varziela. Mostrou muito entusiasmo com o projecto, andou pela aldeia a explicar o que era meu e falou-me de construir plataformas atrás das casas para as pessoas usarem. Gostei da ideia e comprei os terrenos das traseiras”, explica.

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Imagens 3D das casas da Varziela Enark Arquitectos
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Currais que viram AL

Com as obras, as dez casas que comprou vão transformar-se em mais algumas, desde logo porque os currais vão ser adaptados para acomodarem quem por lá quiser passar férias, explica Fábio Correia, arquitecto responsável pelo projecto.

Diz que já conhecia a Varziela muito antes de começar a repensar e redesenhar as antigas casas da aldeia. O atelier Enark Arquitectos quis modernizá-la “sem desfazer o que foi bem feito”, reutilizar a pedra das “paredes toscas” e manter o contacto com a natureza através de grandes janelas de vidro e tectos de pinho.

“Vamos aproveitar a ruína de uma casa e fazer uma espécie de cápsula de vidro que faz a relação interior e exterior. Temos de adaptar os currais às necessidades de hoje em dia e vamos criar aberturas de luz nas traseiras”, explica. No próximo ano, se tudo correr bem, está pronto.

João está à procura de empresas para a reconstrução das casas Enark Arquitectos
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João está à procura de empresas para a reconstrução das casas Enark Arquitectos

João acrescenta que as casas podem receber até 50 pessoas, mas como os amigos também compraram algumas, a Varziela vai conseguir albergar 80 hóspedes que podem optar pelas casas mais pequenas, as de tipologia T2, os currais ou o hostel que, segundo o dono, “terá entre 10 a 12 camas”.

“Gostava de ficar neste sítio há dez anos quando não tinha dinheiro para pagar as melhores casas e essa foi a minha ideia para fazer vários preços. Uma cama no hostel vai variar entre 15 a 30 euros dependendo de ser em época baixa ou alta. As casas mais baratas entre os 50 e os 70 euros e as maiores que dão para oito pessoas entre 200 a 300 euros. Mas não me comprometo com estes valores”, adianta.

Entretanto, comprou mais alguns terrenos próximos das casas para plantar milho e secá-lo na eira, bem como ter mais espaços de lazer.

“Gostava de recuperar as tradições da aldeia, porque acho que valoriza a experiência de quem fica lá alojado. Quero criar conteúdo sobre os costumes e pessoas que vivam na Varziela e preservam tradições interessantes que, infelizmente, se vão perder.”

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As casas podem acomodar até 80 pessoas Enark Arquitectos
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