Um jacto de tinta vermelha “taggou” A Origem do Mundo de Gustave Courbet

Artista franco-luxemburguesa Deborah De Robertis inscreveu a tag MeToo em várias obras expostas no Centro Pompidou-Metz. Protegidas por vidros, nenhuma ficou danificada.

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Deborah De Robertis inscreveu a tag MeToo sobre o vidro que protege a pintura de Courbet DR
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“MeToo.” Foi com esta tag escrita a vermelho, num gesto premeditado e já de algum modo anunciado, que a artista franco-luxemburguesa Deborah De Robertis voltou a inscrever o seu nome na agenda de protestos do mundo da arte e dos media. Na tarde desta segunda-feira, 6 de Maio, entrou numa sala do Centro Pompidou-Metz, em França, onde se encontra exposta a obra A Origem do Mundo, que Gustave Courbet criou em 1866, e lançou sobre ela um jacto de tinta vermelha.

A notícia foi dada pela AFP, com base em informação oriunda da direcção do museu de Metz, e reproduzida pela imprensa francesa.

O quadro de Courbet não terá sofrido nenhum dano, já que se encontrava protegido por uma cobertura de cristal, acrescenta a imprensa, referindo ainda que as autoridades daquela cidade no Leste de França se encontram a investigar o sucedido e terão feito algumas detenções.

Em simultâneo com a sua performance – que intitulou Não devemos separar a mulher da artista –, Deborah De Robertis fez saber, através de uma advogada, que quis inscrever-se num “movimento mundial de jovens mulheres artistas de todas as áreas”. Numa referência ao realismo da pintura de Courbet, que retrata a vulva de uma mulher, a artista defendeu que “aquilo que em dada época era permitido agora já não é aceite pelos jovens”.

A mesma advogada, não nomeada e citada pelo Le Parisien, classificou Deborah De Robertis como “uma grande artista que nos questiona, nos faz reflectir, nos incomoda”.

A Origem do Mundo encontra-se exposta na mostra Lacan, inaugurada no último dia de 2023 e patente até 27 de Maio no Centro Pompidou-Metz, na sequência de um empréstimo do Museu de Orsay, de Paris. A associação da obra de Courbet com o famoso psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) deve-se ao facto de ele ter sido um dos proprietários da pintura, tendo-a mantido guardada durante vários anos, longe dos olhares do mundo, na sua casa de campo.

Dado curioso é A Origem do Mundo ter sido já alvo de uma primeira “acção” de Deborah De Robertis, quando, no Museu de Orsay em Paris, a 29 de Maio de 2014, lhe dedicou uma primeira performance, à qual chamou O Espelho da Origem, colocando-se debaixo do quadro a mostrar o seu próprio sexo. Essa acção foi registada num vídeo, que os comissários de Lacan, Bernard Marcadé e Marie-Laure Bernadac, decidiram incluir na presente mostra no Pompidou-Metz, não muito longe da obra de Courbet – e que agora, segundo avança o Libération, não esconderam a sua “decepção” perante o sucedido.

Ainda segundo este diário, Deborah De Robertis tinha já anunciado a sua performance quando, a 14 de Abril, enviou um comunicado para a imprensa francesa com este teor: “Estou a preparar uma performance para denunciar muito em breve os abusos no mundo da arte, que até agora se tem mantido silencioso.”

Na acção da artista franco-luxemburguesa, avança ainda o Libération, foram também atingidas uma fotografia da artista austríaca Valie Export, intitulada Aktionhose: Genitalpanik (1969-2001), e um bordado de Annette Nessager.

Deborah De Robertis foi já também condenada pela justiça francesa por, em 2018, ter realizado uma performance posando nua junto ao Santuário da Nossa Senhora de Lourdes, nos Pirenéus franceses.

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