“O melhor que a música tem, é o que se come, o que se bebe e o que se passeia, disse-me o Pedro Mestre no outro dia. Ele sabia bem do que estava a falar, desde cedo que através do cante alentejano e da viola campaniça ele já viajava pelo país fora e atravessava o Altântico. E se pensarmos bem, é com as estruturas sócio-culturais e recreativas que existem por todo o país, que muitos jovens têm oportunidade de sair da sua aldeia e conhecer as outras terras e muitas vezes ir para o estrangeiro. As filarmónicas, os ranchos folclóricos, as associações culturais fazem essa ponte através da música e da dança para a gastronomia e claro para o passeio. Eu também comecei pela música e depois fui para a dança e daí para a comida. Tudo com o sufixo, a gostar dela própria, a auto estima é precisa, não porque qualquer destas coisas não goste de si mesma, mas sim porque as pessoas que mantêm vivas estas práticas precisam de ser enaltecidas e valorizadas, é frequente a auto depreciação, quando nos dizem que não cantam nada e não sabem nada. Mas depois toda a gente tem um amigo que faz uns grandes petiscos e não há ninguém que não diga que o arroz doce ou as filhoses da avó ou da mãe são as melhores do mundo. No entanto a gastronomia tradicional portuguesa hoje precisa de alguma auto estima, o que vivemos hoje é diferente do que vemos na Bíblia da Maria de Lurdes Modesto, dez anos de padronização dizimaram muitos negócios gastronómicos familiares. A velhinha que vendia bolos de morango à entrada da praia de Odeceixe e as queijadas caseiras no comboio tiveram o seu fim rápido e o processo de rastreio das sementes é necessário mas muitas vezes tendencioso, resta-nos o logo do consumo próprio que nos deixa comer o feijão carito e o feijão patareco à vontade.
E assim nesta necessidade de conhecimento, a mesma que me leva a percorrer quilómetros para gravar “velhinhas” a cantar por essas estradas fora, que o projecto Esporão e a Comida Portuguesa a Gostar Dela Própria nasceu, essa intenção de ir ao fundo das coisas, de mergulhar nas raízes e deixar as cidades para perceber como se vive nos outros sítios, e como o país é tão variado, muitas vezes de 10 em 10 kms muda totalmente, há muito para conhecer e descobrir. O projecto acontece num momento único e talvez irrepetível em que é possível conciliar um trabalho de campo de recolha de informação e conteúdos culinários "em vias de extinção" com o voluntarismo de profissionais de cozinha que têm orgulho nas suas origens e ligação ao território rural. Vamos assim poder dar voz não só às deliciosas receitas das velhinhas "cozinhadeiras" como também dar visibilidade a chefs, cozinheiros e cozinheiras que se batem diariamente, pela preservação dos valores da cozinha portuguesa e das suas tradições.
Esta é a génese resta-nos agora começar a viajar mês a mês atrás disto tudo, sempre com a música, comida e bebida o quanto baste.
Tiago Pereira
Equipa do projecto Esporão & A Comida Portuguesa a Gostar Dela Própria
Realização e Montagem: Tiago Pereira
Som e imagem: Tiago Pereira e Cláudia Faro
Tradução: João André Abreu
Produção: Sofia Matias, MPAGDP
Consultoria: André Magalhães
Esporão: Filipe Caetano, Catarina Santos, Afonso Sousa e António Roquette
Com a intenção de ir ao fundo das coisas
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