Obrigadinho, Obama!
Por causa do Presidente dos EUA, as crianças cubanas tiveram o pior Natal dos últimos 50 anos. Uma coisa é ser visitado por um Pai Natal revolucionário com os brinquedos velhos de sempre; outra é saber que vão passar a poder ter brinquedos novos, mas só para o ano. De um momento para o outro, o Action Man de 1982 com a boina do Che já não é um brinquedo fixe. Maldita possibilidade de escolha proporcionada pelo comércio livre, que lixou a gestão de expectativas da mocidade comunista!
É por isso que em 2015 só tenho uma resolução de ano novo: visitar Cuba antes que o capitalismo entre à bruta por Havana e destrua irremediavelmente o idílio socialista.
Achava que tinha mais tempo para realizar o meu sonho, mas o Presidente dos Estados Unidos escangalhou tudo. A minha única esperança é que, como o fecho de Guantánamo, esta seja mais uma aldrabice de Obama relacionada com o território cubano.
Sinto que estou prestes a perder a oportunidade única de ser exposto, não só ao sol caribenho, mas também ao povo cubano. A qualidade especial do povo cubano está a acabar, conspurcada pelos EUA, doidos para entrar por Cuba com as suas marcas de roupa, restaurantes de fast food, viagens, imprensa, todo o tipo de maquinetas com Internet, enfim, liberdade em geral. Uma tragédia. Há povos que mantêm a sua simpatia apesar da opressão; o povo cubano só é encantador porque é oprimido. Só cativa por ser cativo. Se deixar de ser, perde a graça. E eu quero conhecer os cubanos antes que abandonem o gosto por carros americanos vintage. A convivência com a economia de mercado é fatal para o coleccionismo de sucata.
A Cuba pobre vale mesmo a pena. Não sou só eu que digo, basta ler os guias. Segundo o Lonely Planet, os cubanos são “sobreviventes e improvisadores, poetas e sonhadores, cínicos e sábios. Desafiando a lógica, é o povo que tem mantido o país vivo à medida que as infra-estruturas se desmoronam; e é também o povo que se certifica que Cuba continua o país fascinante, assombroso e paradoxal que é. Essa singularidade é uma mercadoria em risco de extinção num mundo cada vez mais globalizado. Agarre-a enquanto ainda existe”. É o que vou fazer, agarrá-la antes que Obama estrague tudo.
A minha grande dúvida é se a generosidade do povo se mantém. Temo que não. Sem embargo, os altruístas cubanos vão deixar de enfrentar a morte no mar, em balsas periclitantes, só para irem resgatar os compatriotas que vivem presos nos Estados Unidos. Não valerá a pena. Sem embargo, Cuba deixará de ser o paraíso na terra para onde todos querem ir viver. Um país tão espectacular que os seus habitantes nem têm interesse em conhecer outros países. Aliás, sem embargo, talvez comecemos a ver turistas cubanos em Portugal. Até agora não têm vindo, mas percebe-se: vivendo em Cuba, quem quer visitar uma monótona e afluente democracia?
Felizmente, tudo indica que Obama não está interessado em dar-se bem com a Coreia do Norte, de maneira que continuamos a ter um sítio castiço para experienciar más condições de vida como deve ser.
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