As estrelas da crise

Foram quatro anos de austeridade. Até na forma como os parlamentares e ministros se destacaram nos debates que marcaram a legislatura. As excepções são poucas. Mas foram muitos os episódios marcantes e as figuras de relevo nestes anos em que a troika ditou regras, o Parlamento ouviu a Grândola fora de horas e Ricardo Salgado pediu uma mini no intervalo de uma audição interminável na comissão de inquérito à queda do BES. Tantos que estes quatro anos, vistos em retrospectiva, parecem ter sido muito mais longos do que uma legislatura normal...

As revelações

Maria Luís Albuquerque

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Maria Luís Albuquerque

Quando ainda era secretária de Estado do Tesouro, o caso dos swaps que assinou quando trabalhava na Refer deixou-a na corda bamba. Era a "senhora swaps", escolhida para o Governo por ter sido professora do primeiro-ministro. E pouco mais. Mas a saída de Vítor Gaspar haveria de mostrar uma política fria, calma, impassível, com resposta pronta para todas as questões e uma pouco comum falta de "medo cénico" quando confrontada no Parlamento, nas situações mais difícies. Privatizou a TAP e o BPN, o que restava da EDP e da REN, sobreviveu à queda do Grupo Espírito Santo e à oposição determinada de Paulo Portas. De tal maneira que já lhe auguram um papel na eventual substituição de Passos na liderança do PSD.

Mariana Mortágua

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Mariana Mortágua

Em 2011 estava num lugar não-elegível nas listas do Bloco de Esquerda. Agora vai ser cabeça de lista por Lisboa. Em menos de dois anos (chegou a São Bento em Setembro de 2013, substituindo Ana Drago), esta economista de 28 anos ganhou uma notoriedade nacional, protagonizando alguns dos momentos mais memoráveis da comissão de inquérito ao BES. Confrontando Zeinal Bava e Ricardo Salgado nas audições, trocando por miúdos o jargão económico no seu blogue e, sobretudo, resistindo à tentação de debitar proclamações panfletárias, foi a figura que mais se destacou nestes últimos meses de actividade parlamentar, ajudando o BE a ultrapassar a difícil transição da liderança de Francisco Louçã e as clivagens internas que levaram a um empate na última convenção entre os apoiantes de Catarina Martins e a oposição interna da UDP.

O epifenómeno

Vítor Gaspar

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Vítor Gaspar

"Deixem-me esclarecer muito va-ga-ro-sa-men-te" pediu, em 2012, o então ministro das Finanças aos deputados. Mas o consulado do verdadeiro "número dois" de Passos foi efémero. Dois anos e alguns dias de resultados duvidosos, de "gigantesco aumento de impostos", de batalhas intestinas no Governo (com Portas e Santos Pereira). Pediu a demissão, pela primeira vez, em 22 de Outubro de 2012. Em 1 de Julho de 2013 escreveu uma carta consumando a saída e esclarecendo que não dispunha de "credibilidade e confiança para continuar".

Os caídos

José Sócrates

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José Sócrates

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014, 23 horas: José Sócrates é detido no aeroporto de Lisboa, por suspeitas de fraude fiscal e corrupção. Em prisão preventiva desde então no Estabelecimento Prisional de Évora, ainda não existe uma acusação contra o ex-primeiro-ministro. Considerando-se vítima de uma "caça ao homem" e negando as suspeitas que sobre si recaem, Sócrates diz-se alvo de uma "perseguição política". Mas ainda que nada mais venha a ser provado contra si, os factos tornados públicos, e por si já admitidos (como a sua relação de dependência financeira de empréstimos do amigo Carlos Santos Silva), podem ser suficientes para o afastar da intervenção política que parecia querer manter no futuro.

Miguel Relvas

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Miguel Relvas

Menos de dois meses antes de pedir a demissão, o poderoso ministro adjunto de Passos ainda ensaiou um "se não os podes vencer, junta-te a eles", cantando a Grândola em conjunto com os seus detractores. Virtudes melódicas à parte, não resultou. A investigação aberta pelo seu colega de Governo, Nuno Crato, à sua polémica licenciatura acabaria por deixá-lo numa posição insustentável. Desde que tomou posse, Relvas era uma espécie de "elo mais fraco". Envolvido no caso das secretas, apanhado a pressionar ilegitimamente uma jornalista do PÚBLICO, só caiu quando foram descobertas as 32 equivalências que lhe permitiram concluir uma licenciatura estudando apenas para quatro cadeiras semestrais. Mas as suas aparições recentes e a relação que mantém com Passos Coelho podem significar que as notícias do seu fim são exageradas.

Ricardo Salgado

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Ricardo Salgado

Era o "dono disto tudo" e, nos últimos 12 meses, transformou-se no "culpado disto tudo". O banqueiro mais temido é, agora, perseguido pela justiça, acusado pelo Banco de Portugal, interrogado pelos deputados. Tudo num tom que se julgaria impossível há pouco mais de um ano. Ainda que lhe tenha calhado um tratamento "exemplar" (a resolução do BES e a falência do Grupo poderiam ter sido evitadas se o Governo e o Banco de Portugal tivessem actuado mais cedo), é à sua gestão que se deve a última crise bancária e o arrastamento de uma das mais importantes empresas portuguesas, a PT, na queda de um império com pés de barro, assente em dívida (que era vendida aos próprios clientes, que se arriscam agora a perder as suas popuanças).

Miguel Macedo

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Miguel Macedo

Era um dos mais importantes chefes de fila do PSD, de que fora líder parlamentar antes de chegar a ministro da Administração Interna. Mas a sua proximidade com o escândalo da facilitação de "vistos gold" - uma das bandeiras mais sui generis do Governo - fê-lo sair do Governo, em Novembro. É suspeito do crime de prevaricação de titular do cargo político.

Os estranhos companheiros

Passos Coelho e Paulo Portas

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Passos Coelho e Paulo Portas

Há dois anos, em Julho de 2013, Portas e Passos pareciam irremediavelmente condenados a desentenderem-se. Com a saída de Gaspar e a nomeação de Maria Luís Albuquerque, Portas tentou bater com a porta de forma "irrevogável". Mas não só Passos não aceitou a sua demissão (tornada pública no dia 2), como o seu próprio partido, o CDS, lhe retirou a o tapete. Portas perdeu. Mas formalmente até passou a vice-primeiro-ministro e conseguiu colocar mais ministros do CDS em pastas chave, como a Economia. Passos venceu. Mas ficou "amarrado" a uma coligação (Portugal à Frente) que lhe retira margem estratégica e deputados e que, mesmo que fique à frente nas próximas legislativas, pode não chegar para formar Governo. É que só uma maioria absoluta da coligação serve para manter tudo como está.

Manuela Ferreira Leite, Francisco Louçã, Mário Soares, Manuel Alegre, Pacheco Pereira, Bagão Félix, Freitas do Amaral et al.

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Manuela Ferreira Leite, Francisco Louçã, Mário Soares, Manuel Alegre, Pacheco Pereira, Bagão Félix, Freitas do Amaral et al.

Da crise europeia à Grécia, passando pela política económica do Governo e pela exigência de uma reestruturação da dívida, este "estranhos companheiros de cama", para usar a expressão de Pacheco Pereira, onde se juntam históricos de todos os quadrantes - ex-líderes do PSD, PS, CDS, BE - foram muitas vezes a principal força de oposição em Portugal.

O impopular

Cavaco Silva

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Cavaco Silva

Quando pressionou a queda do anterior Governo e viu que os portugueses, nas urnas, lhe davam razão, ao entregarem o Governo a uma maioria absoluta do PSD coligado com o CDS, Cavaco Silva poderia ter partido para os seus últimos anos de mandato em estado de graça. Mas não foi isso que aconteceu. Algumas intervenções (a mais emblemática disto talvez seja o seu lamento por a sua reforma não chegar para "pagar as despesas") e uma colagem absoluta ao discurso do Governo desbarataram o capital do Presidente, que chega ao fim da sua carreira política com a mais baixa taxa de popularidade de um Chefe de Estado eleito democraticamente em Portugal e limitado para gerir os cenários mais complexos do pós-eleições.

A mudança

Costa vence Seguro

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Costa vence Seguro

Quase nada foi simples na disputa interna do maior partido da oposição. Desde logo, a oportunidade. Seguro vinha de duas vitórias (autárquicas e europeias). Depois, a forma escolhida pela direcção cessante - uma longa campanha interna que culminou numa inédita eleição primária para a escolha do candidato do PS a primeiro-ministro, em vez de um simples congresso electivo. Costa ganhou, Seguro afastou-se e não tem criado problemas ao seu sucessor com declarações críticas, mas tudo isto teve um custo. Interno (visível agora na escolha dos candidatos a deputados e na indefinição sobre as presidenciais) e externo, que é o que mais deve preocupar os responsáveis do PS. Embora o partido parta em vantagem nas sondagens para as legislativas, as sucessivas derrotas nos debates parlamentares com Passos e o efeito contraproducente de algumas medidas do programa eleitoral não parecem permitir sonhar com uma maioria folgada.

Os recém-chegados

Bancada do PCP

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Bancada do PCP

Miguel Tiago, João Oliveira, João Ramos, Rita Rato, Bruno Dias... A bancada do PCP rejuvenesceu tanto que Jerónimo de Sousa é quem destoa naquele universo sub-40. A "renovação", palavra que muitas clivagens causou no partido há 15 anos, tem tirado de São Bento algumas das referências dos comunistas. Os últimos a sair foram Honório Novo e Bernardino Soares (ele próprio longe de ser um veterano).

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