Reviver o passado
Muitos casais que me procuram por dificuldades no seu relacionamento conjugal revivem o seu passado, sem que daí resulte qualquer benefício para os problemas de agora.
Margarida, de 43 anos, professora, de “baixa” prolongada por depressão, falou-me assim: “Sinto-me presa à minha infância. Os meus pais eram muito exigentes, eu não podia falhar. Ainda hoje me lembro quando tive negativa a Estudo do Meio, uma coisa que se dava na primária e a que nunca achei muita graça. Parecia que tinha sido o fim do mundo! E foi assim pela vida fora. Sempre que falho, sinto a sombra dos meus pais sobre a minha cabeça. Agora, quando eles caminham para os 70 anos, ainda não estou à vontade quando nos encontramos. Sinto o seu olhar crítico em tudo! Neste momento em que o meu casamento está a falhar e procuro a ajuda do Professor, ainda menos desejo estar com eles. Tenho a sensação de que me vão culpar do insucesso conjugal! E não me admirava que me atribuíssem a culpa de tudo, esquecendo que o meu marido arranjou outra pessoa…”
Pedro, de 38 anos, programador informático, vive há dois anos em segunda união de facto. Separou-se da primeira mulher por conflitos do quotidiano: “A Marta criticava-me todos os dias, acusava-me de ser fraco, de não me impor no emprego e de não ser firme com o Afonso, o nosso filho. Exactamente as mesmas críticas que o meu pai me fez toda a vida! Sempre me disse que eu tinha medo de tudo e que por isso não se admirava por eu ser gozado na escola, nem se surpreendia com os meus fracassos amorosos na adolescência. Agora, tudo se repete com a Leonor, lá está ele a dizer que ela é uma mulher espantosa e que eu não sei a sorte que tive! É como se eu transportasse as críticas do meu pai a cada segundo que passa… talvez com 20 anos de psicanálise se resolva…”
Tentei dizer à Margarida e ao Pedro que o passado é importante, mas que não podemos ser reféns de factos ocorridos há dezenas de anos. O passado é decisivo para construirmos a nossa identidade, mas jamais a conseguiremos consolidar se não formos capazes de ser autónomos em relação à nossa família de origem. Ao Pedro, expliquei que 20 anos de psicanálise deveriam ser excessivos e muito caros, com a agravante de aos 58 anos ser bem mais difícil conseguir uma relação conjugal com futuro…
Margarida e Pedro são bons exemplos de filhos que persistem presos a relações tóxicas com os seus progenitores, impeditivas da construção de relacionamentos gratificantes com os parceiros amorosos. No fundo, é como se ambos continuassem a necessitar da “autorização” parental para poderem viver a sua vida de adultos, esquecendo-se de que a permissão não está nos seus pais, mas sim na sua pouca autónoma dimensão interna.
Margarida e Pedro ignoram que é urgente verificar as limitações dos seus pais, senhores talvez empenhados que tentaram fazer o melhor possível. Na verdade, já não precisam da validação parental para se empenharem em projectos tão importantes como a sua realização conjugal, nem necessitam do conhecimento da realidade outrora trazido pelos seus progenitores. É crucial que se conheçam melhor a si mesmos, a partir dos problemas do aqui e agora, sem que se preocupem com o ajuste de contas com um passado já distante.
Pode acontecer que os parceiros amorosos de Margarida e de Pedro sejam alvo de conflitos relacionais que nem sempre têm que ver com a sua maneira de ser. É importante que também deixem de ser vítimas da prisão familiar dos seus companheiros.
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