Seguro: os últimos três meses
Recebi muitos comentários à minha crónica sobre António Costa, publicada nesta revista em 15/6. Se a maioria manifestava apoio ao que escrevi, alguns textos sublinhavam a insensibilidade à “traição” de que Seguro teria sido alvo; e referiam o “oportunismo” de Costa, ao avançar apenas quando a vitória nas legislativas parece provável.
Reconheço nestas críticas o tom com que Seguro tem conduzido a sua campanha. Sem grandes argumentos para se opor ao entusiasmo que a candidatura de Costa provocou no país, agita o fantasma da “lealdade” e realça o trabalho durante os seus anos de liderança, em circunstâncias muito difíceis. Ao mesmo tempo, pretende deixar a imagem de que o seu adversário apenas esteve a aguardar o momento propício para assaltar o poder, sem manifestar qualquer respeito pelo que foi realizado por Seguro.
Estes argumentos mostram a visão limitada de Seguro sobre o essencial da luta política. Em primeiro lugar, o actual líder do PS nega um princípio fundamental em democracia: num partido democrático, as lideranças estão sempre em questão, podem ser postas em causa em todos os momentos (desde que se respeitem as regras) e são, como é óbvio, muito condicionadas pela interpretação que é feita, em cada momento, das sondagens de opinião e dos resultados eleitorais.
Costa e os seus apoiantes entenderam que este é o momento de disputar a liderança. Têm toda a legitimidade para o fazer, como tiveram direito a recuar há cerca de um ano. Pôr em causa essa lógica é deturpar o cerne da democracia, que define os mandatos como permanentemente renováveis. Por outro lado, a política necessita de intuição no aproveitamento das oportunidades. Não há nenhum problema nisso: o sentido táctico define os grandes líderes. Se Costa entendeu ser este o seu momento, o PS que disputa, com civismo, se o quer como líder e futuro primeiro-ministro.
Seguro sabe que vive os últimos três meses como líder do PS. Se as “primárias” forem realizadas com rigor e permanente vigilância sobre quem vota — o que é preciso garantir em todos os momentos —, Costa obterá uma vitória clara. Por essa razão, Seguro oscila entre uma posição de vítima e um discurso pretensamente mobilizador, em que fala de si próprio como futuro primeiro-ministro de um governo PS. Em Celorico da Beira, disse que as “primárias” irão ser “o primeiro momento de afirmação da alternativa…”. O problema está na palavra “primeiro”. Com esta afirmação, Seguro demonstra como até agora não conseguiu ser uma verdadeira alternativa; e como se torna necessária uma relegitimação da liderança para termos a perspectiva de uma vitória do PS. O contratempo, para Seguro, é que a 28 de Setembro o líder será outro.
Infelizmente, os últimos três meses de Seguro não auguram nada de bom para o PS. Continuarão acusações pessoais, juízos de intenção e reuniões de apoio em que as emoções tomarão conta de todos. O PS corre riscos de perder três meses para fazer ouvir a sua voz: quem acredita hoje nas propostas do actual secretário-geral, sabendo que é um líder a prazo?
A estratégia de Seguro passa pelo desgaste do seu adversário, através da mobilização em torno da sua esforçada (mas baça) liderança. Costa precisa de resistir às críticas à sua “deslealdade”, conhecer melhor o país e, a seu tempo, concretizar mais as suas ideias.
Que 28 de Setembro chegue depressa!
Comentários
Últimas publicações
Tópicos disponíveis
Escolha um dos seguintes tópicos para criar um grupo no Fórum Público.
Tópicos