Ecosfera

Borboletas

Imagens do Borboletário do Museu Nacional de História Natural e da Ciência

PÚBLICO -

Crónica

As borboletas das nozes

A fase de borboleta faz pouco das pobres Cinderelas: isto, sim, é sofrer uma vida inteira para poder passar umas horinhas mágicas no baile.

As nozes, vindas de Trás-os-Montes, chegaram em Outubro e foram quase todas comidas. As que sobraram foram para um frasco de vidro que foi guardado naquele lugar escuro e fresco com que todos os frascos sonham.

Ontem, abrimos o frasco, não vou dizer quem foi. Fugiu de lá uma nuvem de traças. Não se via nada senão asas, libertação, curiosidade, antenas, pernas, alegria.

"Se calhar, não somos", não disseram as bichas, que tinham mais que fazer, "não somos as borboletas que vocês costumam idealizar, no Euro Disney das vossas cabecinhas, mas olhem... somos o que se arranjou, dados os constrangimentos a que nos sujeitaram: um só frasco, cruelmente vedado, com espaço e oxigénio muito reduzidos, e três mãos-cheias de nozes rejeitadas e pretas".

Aquelas asinhas que escapavam e que se riam nas nossas caras eram o culminar de uma vida particularmente chata: a fase monótona do ovo, o parto prisional, e a vida limitada de uma lagarta dentro de um frasco desprovido de vegetação.

A fase de borboleta faz pouco das pobres Cinderelas: isto, sim, é sofrer uma vida inteira para poder passar umas horinhas mágicas no baile.

É costume dizer-se que as borboletas — e o que são as traças senão borboletas a preto e branco? —​ são sex machines. Mas alguém pensa nas vidas que vão trazer ao mundo, condenadas a repetir o mesmo miserável cativeiro?

Alguém as vai preparar para o horror que vão inspirar como lagartas — um bicho tão giro, tão bem desenhado, tão estável e bem distribuído, com uma locomoção tão aristocrática — junto das mesmas pessoas que vão desatar aos ais e uis quando se tornarem borboletas?

E, mesmo assim, não ralham: "Dizes tu que gostas de mim. Mas tu só gostas de mim quando estou pintadinha e bem cheirosa, toda arreada para ir para o baile!"

Não fui ver nada sobre as traças das nozes, mas, mal acabe de escrever isto, vou deliciar-me com a aprendizagem.

Enganaram-nos. Surpreenderam-nos. Aproveitaram-se de nós.

Já não foi nada mau.

O autor é colunista do PÚBLICO