Pico: Há bar e bar — e depois há o Cella

Imagine-se o quadro: pés assentes numa ilha vulcânica dominada pelo negro da rocha, uma montanha de 2351 metros nas costas, outra ilha salpicada de verde na frente (olá Faial), um sol tímido de Abril a confortar a pele, um mar azul-turquesa aqui, azul-petróleo ali, uns rostos de pedra que nos fixam, militantes — e de repente uns pingos de chuva, quase profética, a caírem sobre nós e sobre as tamargueiras meio despidas. Por uns segundos, deixamo-nos estar imóveis, com vontade de cristalizar o momento. Se por maldade nos obrigassem agora a abandonar o Pico, só por este instante já teria valido a pena termos aguentado a travessia marítima (via São Jorge) que nos deixou com o estômago ligeiramente às voltas. 

Despertamos do devaneio, ligamo-nos de novo ao mundo, viramo-nos para trás e damos de caras com um barco encalhado em terra. Ou será antes uma baleia? Uma pipa de vinho, quem sabe? Um vulcão? Uma pedra que caiu do céu, um óvni? Ou um pouco disto tudo? Houve aqui uma intenção, é claro — “várias características do ambiente estão presentes na arquitectura do edifício (…) [que] actua como uma escultura gigante, feita sob medida para a sua localização”, lê-se na descrição do projecto —, mas o Cella Bar muda de figura dependendo dos olhos que olham para ele. O que não muda é a estupefacção (ou será encantamento?) quando se percebe que as fotografias também pecam por defeito. 

Em Fevereiro deste ano, o portal de arquitectura Archdaily pôs o Cella Bar nas bocas do mundo, ao atribuir-lhe o prémio Edifício do Ano 2016, na categoria Hospitalidade. As imagens do bar da Barca, na Madalena, correram a Internet e alimentaram ilusões (e discussões): seria o lugar assim tão perfeito? Agora que aqui estamos, meio-dia em ponto, confirmamos que melhor seria quase impossível. A paisagem faz muito, quase tudo, mas a intervenção arquitectónica soube trazê-la para a sua forma e também para o interior do bar, de onde se continua a avistar sem pudor todo o enquadramento natural. Entremos para tirar as dúvidas, se é que ainda as temos. 

Recebe-nos Filipe Paulo, um dos sócios do Cella Bar. Abre-se a porta e estamos na garrafeira, onde nas estantes de madeira clara repousam referências da ilha e de fora dela: há aqui vinhos do Pico, pois então! (Curral Atlântis, Isabella Proibida, Vinhas de Lava, Frei Gigante, Azores Wine Company), mas também das restantes regiões vinícolas portuguesas, com maior destaque para o Alentejo e o Douro, e ainda alguns espumantes, champanhes e Porto. Vendem-se à garrafa e alguns a copo. Numa das três ou quatro mesas que se contam neste espaço, duas mulheres, estrangeiras, experimentam um vinho da ilha. À nossa frente, as escadas que levam ao andar superior, onde mora o “restaurante de tapas”, como Filipe e Fábio gostam de lhe chamar. “Somos um bom bar com coisas para comer, e não um mau restaurante, como já nos chamaram”, ri-se Filipe Paulo.

Antes de subirmos, porém, viramos à esquerda e de novo abrimos a boca de espanto. A sala do bar propriamente dito é rasgada por janelas ondulantes que trazem para dentro o assombro paisagístico de que há pouco falávamos. É como se estivéssemos a espreitar o mundo pela escotilha de um barco — e esse, visto daqui, é o mesmo mundo de mar turquesa aqui e azul-petróleo ali, do Faial lá na frente, das rochas negras que se espalham sem regra, da dança das gaivotas, do mesmo sol tímido de Abril, só os pingos de chuva é que já não caem. 

Inteiramente forrado a madeira — “isto era a cofragem, era para ser revestido, mas depois gostámos e deixámos ficar”, explica Filipe —, o bar tem pequenas mesas redondas, cadeiras azuis, meia dúzia de candeeiros de pé alto, caras discretas esculpidas nalgumas traves (da autoria de Paulo Neves, que também assina os rostos de pedra de que há pouco falávamos). A decoração fica-se por aqui, não precisa de mais nada, o resto é literalmente paisagem. Abre-se uma porta e é o mar, às vezes demasiado próximo. Agora que aqui estamos, de novo no exterior, Filipe explica-nos alguns dos detalhes do projecto, que tem a assinatura do arquitecto Fernando Coelho (a decoração de interiores, já agora, ficou a cargo de Paulo Lobo).

O Cella Bar é constituído por dois volumes distintos. “Havia a casa original, de basalto, onde hoje está o restaurante. Quisemos dar-lhe um acrescento mais orgânico, a projectar o futuro, e foi assim que nasceu este corpo, onde está o bar”, aponta Filipe. Para este novo volume, foi escolhida a madeira de criptoméria, por ser “a que mais se adapta às condições”. “Levou tratamento, claro, mas a ideia foi usar materiais naturais e depois deixar que eles ganhem a sua vida própria”, narra Filipe.

Descontraído, profissional

Subimos ao andar de cima, mas ainda não é agora que olhamos a sério para a sala do restaurante. A esplanada em deck exerce um poder de atracção ao qual não se resiste. É aqui, nesta varanda a dar para o mar, que Fábio Matos se junta à conversa. Vamos, então, à génese do Cella. Filipe trabalhou alguns anos em Lisboa e quando regressou às origens identificou no Pico “uma necessidade de mercado”. “O que aqui havia eram bares para jovens, senti que fazia falta um espaço onde se pudesse conversar, beber um copo, comer com qualidade.” A ideia ganhou forma e quando o arquitecto foi contactado, os dois sócios, ambos da área da gestão, disseram-lhe que ainda não tinham “um conceito bem definido”. “Ele respondeu que isso era bom. Teve carta branca e aguentou-se com ela até ao fim”, conta Filipe Paulo. 

O Cella abriu a 23 de Junho do ano passado, mas as obras duraram mais ou menos dois anos. “E foram polémicas”, nota Fábio Matos. “O Pico é protegido, quando as pessoas começaram a ver este volume aqui a crescer, desconfiaram”, recorda Filipe. “E houve até um abaixo-assinado para parar a obra e uma queixa-crime por suspeitas de favorecimento na altura do licenciamento”, completa Fábio.

O prémio do Archdaily, e consequentemente o aumento do número de turistas na ilha também por causa do Cella, ajudou a serenar os ânimos. “É claro que um bar na Madalena ser uma referência internacional põe as pessoas a olharem para nós com mais carinho”, comenta Filipe. E acrescenta que se nota que “algumas prioridades já estão invertidas”: “Antes as pessoas vinham ao Pico com o objectivo principal de escalar a montanha. Agora já aqui aparece quem tenha vindo para conhecer o Cella. E isso enche-nos de orgulho.”

É chegada a hora de nos sentarmos à mesa para pôr à prova a mão de Luís Moisão, alentejano de Beja a viver há alguns anos nas ilhas, para a cozinha. Filipe reforça a ideia de que o Cella tenta oferecer “um serviço descontraído mas profissional”. Somos cinco à mesa e os donos do bar tomaram a liberdade de pedir porções para partilhar, de modo a que fiquemos a conhecer mais referências da carta. Para entrada, temos queijos (das ilhas, naturalmente), ovos mexidos com farinheira, morcela e linguiça do Pico, umas deliciosas gambas ao alho (12€). “Do mar” provamos polvo assado no forno (18€), tenro e muito saboroso, e “Da terra” experimentamos o bife à Cella (16€). Confirmamos: o serviço é despretensioso, mas praticamente irrepreensível. Já estamos com o estômago a pedir tréguas, mas informam-nos que à mousse de chocolate (4,50€) é proibido resistir. Só dizemos isto: vale a pena fazer o esforço. 

São praticamente três da tarde. O pôr do sol no Cella deve ser impagável, mas não vamos poder ficar para o ver ao vivo e a cores. Voltamos lá fora, com um copo de Curral Atlântis na mão, e fechamos os olhos. Abrimo-los de novo e... Imagine-se o quadro: pés assentes numa ilha vulcânica dominada pelo negro da rocha, uma montanha de 2351 metros nas costas, outra ilha salpicada de verde na frente (olá Faial), um sol tímido de Abril a confortar a pele… Precisaremos de mais?

Cella Bar
Lugar da Barca
9950-303 Madalena
Tel.: 292 623 654/ 962 799 526
Email: [email protected]
www.facebook.com/cellabar/
Horários: no Verão (e desde 1 de Maio que é Verão no Cella), todos os dias, das 12h às 2h; no Inverno, o horário mantém-se, mas o bar fecha à segunda e à terça.
Preços: água a 1,50€; refrigerantes a 1,80€; cerveja a partir de 2,50€; vinho a copo desde 3€, garrafas a partir de 12€. Nas comidas, há sandes a partir de 2,50€, batatas fritas caseiras a 2,50€, ovos estrelados a 1,80€, sopa de peixe a 5€; os pratos mais substanciais vão dos 15€ aos 18€.

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Manuel Roberto
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